Eu quero ter a sensação das cordilheiras,
desabando sobre as flores inocentes e rasteiras.
Eu quero ver a procissão dos suicidas,
caminhando para a morte pelo bem de nossas vidas.
Eu quero crer na solução dos evangelhos,
obrigando os nossos moços ao poder dos nossos velhos.
Eu quero ler o coração dos comandantes,
condenando os seus soldados pela orgia dos farsantes.
Eu quero apenas ser cruel naturalmente,
e descobrir onde o mal nasce e destruir sua semente.
Eu quero ser da legião dos grandes mitos,
transformando a juventude num exército de aflitos.
Eu quero ver a ascensão de Iscariotes,
e no sábado um Jesus crucificado em cada poste.
Eu quero ler na sagração dos estandartes,
uma frase escrita a fogo pelo punho de deus Marte.
Paulo César Pinheiro
terça-feira, 29 de setembro de 2009
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
A Causa das Coisas
Confiram ao sexo
a maior glória.
Foi ele, sem nexo
que guisou a história.
Entrou nos palácios,
em todas as terras,
detruíu a Paz,
foi causa de guerras.
Po ele nasceram
horóis consagrados.
Por ele morreram
milhões de soldados.
É o deus do Mundo
e o único deus
da religião
que não tem ateus.
F. de Sousa Borges
a maior glória.
Foi ele, sem nexo
que guisou a história.
Entrou nos palácios,
em todas as terras,
detruíu a Paz,
foi causa de guerras.
Po ele nasceram
horóis consagrados.
Por ele morreram
milhões de soldados.
É o deus do Mundo
e o único deus
da religião
que não tem ateus.
F. de Sousa Borges
domingo, 23 de agosto de 2009
Ao sedutor
Um acaricia o pé da cadeira
Até a cadeira mexer
E com o pé lhe faça um sinal amável
Outro beija a fechadura
Como um doido vai-a beijando
Até a fechadura lhe dar também um beijo
Um terceiro mantém-se de lado
Olha-os de revés e abana a cabeça
Abana a cabeça
Até que lhe cai
Vasco Popa (trad. Eugénio de Andrade)
Até a cadeira mexer
E com o pé lhe faça um sinal amável
Outro beija a fechadura
Como um doido vai-a beijando
Até a fechadura lhe dar também um beijo
Um terceiro mantém-se de lado
Olha-os de revés e abana a cabeça
Abana a cabeça
Até que lhe cai
Vasco Popa (trad. Eugénio de Andrade)
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
A vida humana não chega a cem anos
Muitas vezes tem mil anos de desgosto
Mal começamos a melhorar de uma doença
Logo nos consumimos por causa de um filho ou de um neto
Baixamos os olhos para a terra onde cresce a raiz do cereal
Erguemos o olhar para cimo da amoreira
Quando a Balança cair no Mar da China
Chegando ao fundo começamos a saber parar
Han-Shan (versão Ana Hatherly)
Muitas vezes tem mil anos de desgosto
Mal começamos a melhorar de uma doença
Logo nos consumimos por causa de um filho ou de um neto
Baixamos os olhos para a terra onde cresce a raiz do cereal
Erguemos o olhar para cimo da amoreira
Quando a Balança cair no Mar da China
Chegando ao fundo começamos a saber parar
Han-Shan (versão Ana Hatherly)
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Quasi
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador d'espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quasi vivido...
Quasi o amor, quasi o triunfo e a chama,
Quasi o princípio e o fim - quasi a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos d'herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
....................................................................
....................................................................
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Mário de Sá-Carneiro
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador d'espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quasi vivido...
Quasi o amor, quasi o triunfo e a chama,
Quasi o princípio e o fim - quasi a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos d'herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
....................................................................
....................................................................
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Mário de Sá-Carneiro
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
A débil (Na cidade)
Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.
Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.
E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.
« Ela aí vem!» disse eu para os demais;
e pus-me a olhar, vexado e suspirando,
o teu corpo que pulsa, alegre e brando,
na frescura dos linhos matinais.
Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez que o não suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.
Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça;
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.
Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.
Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!
Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.
Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.
«Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!»
De repente, paraste, embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.
E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.
E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.
Cesário Verde
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.
Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.
E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.
« Ela aí vem!» disse eu para os demais;
e pus-me a olhar, vexado e suspirando,
o teu corpo que pulsa, alegre e brando,
na frescura dos linhos matinais.
Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez que o não suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.
Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça;
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.
Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.
Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!
Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.
Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.
«Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!»
De repente, paraste, embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.
E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.
E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.
Cesário Verde
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Hora Absurda
O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraiso...
(...)
Fernando Pessoa
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraiso...
(...)
Fernando Pessoa
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